27 04 - Agenda

Kindembu: tradição e diálogo musical

O Festival EU SOU A CONCHA, que marca a reabertura da Concha Acústica, receberá o espetáculo cênico-musical Kindembu no próximo dia 13 de maio, às 20h, celebrando a união de gerações da música baiana e a tradição do cancioneiro afro. No palco, a linguagem e a relevância do Afoxé Filhos de Gandhy, Cortejo Afro, Ilê Aiyê, Malê Debalê e Muzenza em diálogo criativo com músicos da nova geração, além da participação especial do grupo Olodum. O roteiro é de Elísio Lopes Jr., que também assina a direção geral. A apresentação, que acontece no mesmo dia do show de Maria Bethânia, será para convidados.

Pontes entre o tradicional e o moderno, entre as possibilidades estéticas e a ancestralidade. Este é o conceito-chave do espetáculo, que leva o nome de Kindembu, o Nkisi Tempo, como também é chamado. O palco da Concha vai ganhar as cores e as formas dos blocos afros e suas tradições. A apresentação é uma oportunidade de ver re-significada a possibilidade musical gerada pela história consistente desses blocos, que possuem suas trajetórias na militância negra.

A reverberação da tradição musical afro-baiana será explicitada nos encontros entre as entidades afros com alguns nomes da música contemporânea, num mix de sonoridades e timbres. O Afoxé Filhos de Gandhy receberá Pedro Pondé; o Ilê Aiyê terá o cantor Dão como convidado; o Muzenza divide o palco com a brasiliense Ellen Oléria; Malê Debalê canta com Larissa Luz; enquanto Cortejo Afro e Marcia Castro também se encontram no palco, em pílulas mistas de sonoridades convergentes, tradição e reverência, retratando a caminhada da arte negra na Bahia e no Brasil. “Essa experiência dos blocos afros de também beberem nas estéticas dos novos artistas e na tecnologia vem dando resultados e esse espetáculo já existe há três anos se renovando”, afirma Elísio Lopes Jr., para quem a palavra de ordem é trocar. “Não é um espetáculo que se encerra no show. É uma proposta de troca contínua, de redescobertas”, continua.

Em Kindembu, a dança funciona como elemento de ligação cênica, com coreografias de Zebrinha e performances de 12 bailarinos dos blocos afros, além de convidados de outras vertentes da dança. Também em diálogo com a música, as artes visuais vão emoldurando o espaço da celebração e explorando as possibilidades cênicas e sonoras. No cenário, que tem concepção de Renata Motta, formas e texturas se transformam de acordo com cada momento do show. Projeções do VJ Dexter a partir do trabalho das estampas dos blocos afros e de fotografias do fotógrafo maranhense Márcio Vasconcelos interagem com o cenário, trazendo reminiscências de um Brasil atemporal e de uma África mítica.

A concepção dos figurinos de músicos, cantores e bailarinos ficou a cargo de Alberto Pitta. Artista visual e presidente do Cortejo Afro, Pitta criou peças exclusivas com o conceito monocromático, enfatizando as formas e os símbolos de cada bloco. Ele explica que os figurinos são a mais justa adequação daquilo que chama de “a estética elegante da gente do povo”. “São batas, saias, calças, túnicas, turbantes, panos da costa, torços e colares, todos com a predominância do branco da paz de Oxalá, entrecortados com simbologias milenares de África, estampadas nos panos dos blocos afros e afoxés e suas representações”, descreve.

Idealizado pela produtora Janela do Mundo em 2013, o espetáculo já teve apresentações em Salvador, no Teatro Castro Alves (2013), e em Brasília, no Teatro da CAIXA (2015). Segundo Claudia Lima, diretora da Janela do Mundo, cada espetáculo oferece uma experiência diferente com a mudança de artistas e repertório. O objetivo é circular nacionalmente, dialogando com a cena musical contemporânea. “Fizemos isto em Brasília no último ano, dialogando com a cena local do rap, do samba e da música pop e o resultado foi incrível. A importância dessas entidades e a qualidade do seu trabalho artístico precisa ser apreciada por todo Brasil”, completa.

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